Vindo
das luzes e dos deuses, eis-me no exílio, pois separado deles.
(Fragmento do Turfa'n M7)
Colho, começo de novo, posso parar.
Está em meu poder querer sair de dentro de mim e. Espero. Não
me disseste que virias. Não me falaste que chegarias assim tão
perto. Agora o que fazemos? Posso sentir a ausência se aproximando e
algo que vai querendo sair assim derrepente, perto da histeria, mais
uma vez. Espero. É preciso re-organizar as palavras, colocá-las
desnudas em fila e, bem de perto, vasculhar por cada parte de seus corpos
nus. Foder a palavra com essa força sado-masoquista e vê-la gritar
na sua frente até que o seu desejo sádico se satisfaça
e sobrevenha a mudez como intrínseco gozo. Mentira.
Percebeste?
Olha
agora. Bem de perto. Frio que se espalha pelo meu corpo e vai tomando conta
aos poucos dos meus seios. Dá-me tua cabeça que quero aninhá-la
entre os meus peitos e fazer nascer de nosso encontro íntimo algo que
o valha. Algo que nos valha. Navalha. Grito mesmo, cuspo na tua cara se for
preciso para que me faça ouvir por detrás dos muros grossos
que construístes e em cujas salas vazias e inóspitas te isolaste
como El Desdichado. Sei no entanto que te aproximas dos menininhos para corromper
seus corpos, porque desejas, lá no fundo, bem fundo, bem fundo mesmo,
que de ti pudesse ser lavada essa sujeira que suportas como se a ti fosse
dado escolher. Mas não foi. Há o momento da escolha e o momento
da dúvida, para ambos é preciso estar preparado. Despe-te agora
e repousa sob a luz do sol que lânguido te faz deitar sobre o sofá
a falar asneiras. Grande cabeça de vento. Serves mesmo para foder.
Nada que possas dizer irá me alcançar aqui onde estou. Nem o
queres. Nem quererias, se pudesses. Acredita-me.
Não conheces a minha essência. Todo o vazio, todo o vazio que
há dentro de mim, apenas uma onda a vibrar no espaço intergaláctico,
perto de um planeta escuro e árido. Sou assim. Primeira essência
das coisas, campo magnético a dançar eternamente, eternamente
diminuindo, cada vez mais, mas nunca o bastante. Sibila possuída de
um deus, de minha boca brotam profecias, como se da merda se erguesse uma
flor. Sorris?
Podes sorrir?
Não. Pensas que podes. Teu sorriso infecto apenas entorta-te a face,
distorce teu semblante como o rosnar de um cachorro leproso, que o és,
bem sabes. E, sim, te sentes confortável em o seres e por que não
te sentirias? Teu sorriso é como uma víbora que se esconde por
entre um campo de margaridas brancas, a oscilarem com o vento, te sentes a
vontade e te deleitas a contemplares a ti mesmo, duende maligno e lascivo
que és, a roubar criancinhas de seus pais durante as tempestades.
Mas agora observa.
É preciso ter calma. Observa.
Ouve e devagar compreende que não faço parte de ti. Não
te assustes. Compreende apenas e assim atinge a libertação.
Compreender é dar-se ao mundo e deixar-se por ele invadir. Será
teu fim, bem o sabes, será teu fim, porque ao invadir-te o mundo te
corromperá e, mesmo sendo ignóbil como és (gostas dessa
palavra, eu sei, ignóbil. IG-NÓ-BIL, enches tua boca e a repetes
como um macaco, babas sobre ela e a manchas com tua excrescência fétida),
mesmo sendo ignóbil como és, repito, trazes em ti uma inocência
cega que então perderás.
Ouve o fim do mundo dentro da minha mão. Isso. Aproxima teu ouvido.
Todos os seres pressentem o arrepio último que percorre as coisas e
as faz assim mudas. Revelo esse segredo para ti. Ouve agora. É preciso
que aprendas.
A mim resta-me apenas o vazio das noites frias em que ainda posso ouvir ao
longe os gritos daqueles que morrem sob o peso de lanças imemoriais.
Antiga como as areias do deserto, contemplo as ondas do tempo espraiarem-se
em meus olhos. A Ennoia perdida, trazida a esse mundo para cometer todos os
pecados, a Sophia divina, corrompida através da carne e da estultícia
para transcender a essência humana e outra vez unir-se ao elemento prístino
de um universo que adormece como um búfalo hipnotizado por uma naja.
A Lilith sombria e mais amada, alimentada de seus filhos e condenada a copular
com demônios para suprema alegria de Deus, um deus pornográfico
e cafetão, a foder-lhe no mais íntimo de si mesma para insuflá-la
de vida cósmica e pura. Maria, cheia de graça.
Sou como uma loba a vagar pela noite de uma Roma negra e antiga, na alvorada
de toda a nossa existência, trago em mim o leite das coisas e com minhas
tetas alimentei a Rômulo e Remo, como um dia alimentei Caim e alimentei
Abel. A um dando a vida, a outro, a morte. Percebes? Não, não
percebes, escalizas-te. Feliz de ti que podes escandalizar-te, o que para
ti é motivo de horror, para mim sempre foi e será de jactância
suprema. Escandalizas-te e te alimentas de tua própria merda, felicidade
a tua de seres tão cego a ponto de não perceberes. Mas eu vejo
e, para mim, não há outra escolha.
Agora cala-te e dorme. Não haverá amanhã. Hoje eu parto
e agora te deixo, de mim o que aprendeste ser-te-á o óbolo com
que cruzarás o negro Estige em direção ao esquecimento
e a bem-aventurança eternas. Cantarei ainda um pouco até que
te encolhas e voltes a ser apenas uma parte pendente em um mundo quebrado.
Encosta tua cabeça em meu colo. Assim.
De leve.
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