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A Revolucao - Por Daniela Sigaud//megeras@uol.com.br


A REVOLUÇÃO
Nina estava empacada no quinto capítulo de seu romance. Nem o vinho ajudava
a criar a próxima frase. Estava esperando Alberto, seu companheiro, pra ao
menos fazerem amor e dormirem abraçados. Ele era pintor e trabalhava como
barman em uma boate. Seus quadros deixavam o pequeno apartamento bonito.
Barulhinho do icq, "Nina, irei para a rodoviária e amanhã te espero, a
noite, no Hotel Veridiana, centro da cidade..." Ela começou a gargalhar, um
absurdo, pois este cara da mensagem, Lucas, que se dizia professor de uma
Universidade na Bahia, falava com ela apenas a um mês. Ele havia lido um
conto de Nina em um site, seus papos não tinham muito sentido, nem
regularidade, e agora estava vindo pra Sampa. Ele já tinha lhe mandado uma
foto, jovem, gato, dizia que quase não falava com ninguém, " quem não
participa da revolução aponto o dedo na cara", mas podia ser tudo uma
mentira. Nina era medrosa, não uma revolucionária, e não entendia o que este
cara cheio de idéias poderia querer com o nada, alguém que se abstinha.
Neste momento Alberto chegou cansado e Nina passou a noite acordada em seus
braços, pássaro no ninho, esperando o outro dia...
NINA
Acordei e já eram sete da noite. Merda de insônia! Tomei banho, no espelho,
bilhete do Alberto avisando que iria da academia direto para a boate. Vesti
calcinha preta e saia, puro desejo! No caminho até o metrô a expectativa me
distraia. Será que ele é o cara da foto? De que revolução ele fala? Pode ser
um louco e querer me matar, meu livro e Alberto sentiriam minha falta. No
trem observava as pessoas como de costume, adolescentes cheios de vida em
contraste com rostos cansados, tristes. Saí do metrô e num passo apertado
cheguei rápido ao hotel, três estrelas, e o porteiro já estava avisado pra
deixar eu subir. Lucas me esperava na porta, sorrindo, e era o cara da foto.
" Seja bem vinda, pode entrar" ele disse num delicioso e mole sotaque
baiano. Fiquei de pé esperando que ele começasse a falar de Focault,
perguntasse minha ideologia ou o porquê de eu estar ali, mas ele se
aproximou e colocou o dedo em meu rosto. Sem hesitar, chupei, como se o
gosto pudesse me trazer respostas. Sua outra mão invadiu minha calcinha e
pude sentir seu dedo encaixando em minha xoxota feito chave em fechadura. O
sexo rolou ali mesmo sem tirarmos as roupas. Depois transamos no chuveiro e
acabamos nus entrelaçados na cama. Ele começou a falar e por duas horas
fiquei ouvindo a história de vinte cinco anos de vida; nascimento na base do
fórceps, adolescência pobre, casamento fracassado, demissão da Universidade.
Eu não sabia onde estava encaixada nessa história toda, mas tinha tempo pra
ouvi-la. Por fim, ele me comeu de novo, não me fez perguntas, e acabei
sugerindo uma pizza.
Na rua o frio era cortante, nos demos as mãos numa intimidade sem palavras,
quando,do escuro, surgiu um garoto de olhos luminosos e estalados. A voz
trêmula exigiu que passássemos tudo. Lucas simpaticamente pediu calma,
tentou conversar, mas aquele garoto só conhecia o tempo de um segundo e não
tinha tempo pra malineza nenhuma. O menino atirou e saiu correndo levando
minha bolsa. Lucas no chão, sangue no peito, um passante ligou pro hospital
de seu celular, e eu ajoelhei, ficando ao seu lado até chegar a ambulância.
Ele se foi. Resolvi sair dali quando os ecos da sirene já estavam longe.
Comecei a correr, pois agora tinha uma vida pra contar.

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