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Ensaio >> A Figura do Agregado - Por Mauricio Trindade
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A figura do "agregado" em Dom Casmurro

Os romances e contos de Machado de Assis, principalmente os de sua fase madura, fornecem uma base sólida e expressiva para aqueles que desejam analisar os quadros sociais tão característicos do nosso Brasil de fins do século XIX . Dom Casmurro (1899) , é por sinal a obra que prende a atenção de muitos críticos, nacionais e estrangeiros. Por um lado e primeiramente devido ao narrador parcial e unilateral em primeira pessoa e, em conseqüência, à impossibilidade de se chegar a uma conclusão certeira a respeito da traição, ou não , de Capitu - o que leva Roberto Schwarz a dizer que "o livro tem um lado de engenhoca hipercalculada, de romance policial, um recurso manipulativo e meio barato, tratado porém de maneira sofisticadíssima e genial". Já por outro lado - e muito importante para o leitor mais atento - devido à sutil, aguçada e manifesta exposição das relações sociais presentes nos traços característicos dos personagens, feita em fina sintonia com a organização narrativa intricada e coesa do livro. Em especial, vale ressaltar o registro machadiano do universo de dominação e afetividade tradicionais , na qual a figura do agregado, dentre outras, é basilar para o exercício de entendimento das relações de favor.
Portanto, abaixo seguem alguns delineamentos e certos aspectos de composição machadianos, concedendo depois atenção ao personagem José Dias, cujo protótipo é o "homem livre" que o autor "estuda com precisão propriamente científica" . O caminho a ser percorrido segue a fortuna crítica providenciada por Roberto Schwarz e também, porém em menor grau, por John Gledson.

O escritor pérfido

Machado de Assis dispensa intróitos. Quase sexagenário na época de lançamento de Dom Casmurro, sua carreira intelectual já estava consagrada desde a década anterior, pois, antes mesmo de 1890, ele já era considerado o maior escritor do país! Dentre os vários comentários a respeito de seu estilo, é a ironia fina - sem falar do "jeito filosofante" e do gosto pelas "sentenças morais lapidares" - a que mais persiste ao tempo . Hoje mesmo, mais de cem anos depois da primeira edição, não há como não se extasiar com as "tiradas" irônicas introduzidas por Machado na narrativa, espalhadas às dúzias no decorrer do livro - e a maior parte, claro, na fala de Bentinho. É este personagem que deixa claro também a falsidade constitutiva de sua prosa: "Machado compõe paradigmas de elegância que são ápices de falsidade, e é aí que reside a ousadia, a sua verdade artística. Nenhum patriarca brasileiro foi tão elegante na dicção e na hipocrisia quanto Bentinho, razão pela qual esta última passou despercebida. A idéia de aperfeiçoar a falsidade, como parte de um intuito crítico-destrutivo, é artisticamente pérfida" (grifos meus).
Antonio Candido, por sua vez, nos auxilia a entender o autor ao introduzir o conceito de "polivalência do verbo literário", com vistas a ratificar a riqueza de significado da obra machadiana, motivo suficiente para que "cada grupo e cada época encontrem as suas obsessões e as suas necessidades de expressão... vendo nele um grande escritor devido a qualidades por vezes contraditórias" . Ora, sabemos que os primeiros críticos não chegaram a duvidar da palavra do Casmurro, prevalecendo uma leitura conformista. Só em 1960, com Helen Caldwell e seu The Brazilian Othello of Machado de Assis, foi possível desvelar o narrador, com a afirmação da inocência de Capitu. Desde então, a obra tem sido motivo de vários ensaios e estudos críticos. Assim, "enigmático e bifronte, olhando para o passado e para o futuro, escondendo um mundo estranho e original sob a neutralidade aparente das suas histórias 'que todos podiam ler'" , Machado consegue unir o que muitos historiadores, como Caio Prado Jr. e Gilberto Freyre, não conseguiram: "A constelação de herança colonial e racionalidade burguesa estabilizada enquanto presente problemático, um universo a ser explorado em si mesmo, com os dois pólos postos em questão, o que é mais real, de certo modo, que o progressismo ou o saudosismo dos dois grandes historiadores" , respectivamente (grifos meus). Daí a importância de José Dias, uma vez que permite exemplificar um tipo de comportamento e situação cujo "laço de origem entre a liberdade e a propriedade burguesa existe e até hoje não se esgotou por completo em parte alguma."

O tríptico liberalismo/escravidão/favor

As relações de favor que eram típicas no Brasil fin de siècle - e que atualmente, aqui e ali, como citado, ainda são - podem ser resgatadas e melhor compreendidas à luz do descompasso entre as "idéias" e a realidade social . Resumidamente, havia um quadro formado pelo liberalismo, ideologia dominante e importada da Europa, em confronto direto com a escravidão. Contudo, o liberalismo, sem se tornar descartável, foi ao contrário largamente utilizado por diversas camadas da intelectualidade brasileira, e isso pode ser explicado mediante a própria formação colonial do país . Esta engendrou três classes: a dos latifundiários (proprietários); a dos escravos; e uma terceira, ausente (ou pelo menos deixada fora) das análises mais clássicas, a dos "homens livres" (não proprietários ) - que, na verdade, eram também dependentes dos senhores: "nem proprietários nem proletários, seu acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande. O agregado é a sua caricatura" . Dessa maneira, a escravidão, o "espírito" liberal e o favor convivem, com seus traços particulares e aos trancos e barrancos, na vida social brasileira. Todos estão presentes em todas as dimensões de nossa sociedade no século XIX; todavia, aquele último aparece com um peso maior na análise de Roberto Schwarz, pois é por meio dele que se entende o liberalismo sui generis predominante em tal momento no Brasil: "O favor é, portanto, o mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm. Note-se ainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida ideológica, regida, em conseqüência, por este mesmo mecanismo" . Um pouco adiante, Schwarz complementa a frase acima: "o escravismo desmente as idéias liberais; mais insidiosamente o favor, tão incompatível com elas quanto o primeiro, as absorve e desloca, originando um padrão particular" . É a descentralização das idéias no Brasil, e os homens livres, a hoje famosa "terceira classe", produzem-se e reproduzem-se pela via do favor, e por intermédio dele sustentam aqui as ideologias liberais, cuja contradição com a ordem social existente é mais do que óbvia.
Vale fazer aqui um excurso e acrescentar que o que está em jogo é a própria noção de indivíduo. Se o indivíduo burguês nasce da oposição entre o privado e o público, se a cidade moderna européia é o terreno que propicia a impessoalidade e a privacidade, no Brasil este indivíduo não existe. "No contexto brasileiro, o favor assegurava às duas partes [proprietários e homens livres], em especial à mais fraca, de que nenhuma é escrava" . A constituição do indivíduo brasileiro passa pelo favor, e pelo contraste entre escravo e "não-escravo". Afirmar-se como sujeito implica afirmar-se como não-escravo; mas, paradoxalmente, o indivíduo brasileiro só pode existir graças à escravidão. É fácil perceber que as idéias aqui estão muito fora do lugar! Só que o favor faz com que essas classes intermediárias - dependentes tanto econômica quanto socialmente - confiram uma roupagem racional à estrutura social brasileira. "Ao legitimar o arbítrio por meio de alguma razão 'racional', o favorecido conscientemente engrandece a si e ao seu benfeitor, que por sua vez não vê, nessa era de hegemonia das razões, motivo para desmenti-lo" . E podemos agora perceber que estas idéias fora do lugar têm aqui um lugar muito especial: "sua regra é outra, diversa da que denominam; é da ordem do relevo social, em detrimento de sua intenção cognitiva e de sistema" . O liberalismo, então, não estaria tão fora de lugar como parece, mas sim ocupando um lugar que lhe é próprio. Se não pretende - e nem poderia devido às contradições tão visíveis - servir como explicação social, serve no entanto, assim como na Europa, para legitimar uma ordem social dada, qual seja, a ordem baseada nas relações escravocratas que tem nos homens livres, mas dependentes dos favores, os seus intermediários sociais e intelectuais.

A figura do agregado

A parentela de Bentinho - "uma dessas grandes moléculas sociais características do Brasil tradicional" -, bem como os demais personagens que se ligam à família (José Dias, "a gente do Pádua", o padre "protonotário apostólico" Cabral, etc.) exemplificam a dominação autoritária paternalista e a dependência pessoal direta. Como a intenção é melhor delimitar esta última, José Dias será o foco daqui em diante.
O primeiro contato que temos com o agregado acontece quando a ação propriamente dita começa, isto é, antes mesmo de sabermos algo a respeito da sua caracterização, da sua "lógica interna de tipo social" ou sua "necessidade social". Esse recurso machadiano na narrativa serve em certo sentido para nos despistar, uma vez que, no momento da "denúncia", encenada por José Dias a dona Glória sobre os "namoricos" entre Bentinho e Capitu, corremos o risco de entendê-lo simplesmente como um personagem mau ou fofoqueiro - quando, na verdade, sua atuação é mais de submissão. Somente depois perceberemos que, ao viver de favor, ele precisa saber se inserir nas situações. Daí a necessidade de prudência, como no instante em que ele vai até a porta da sala certificar-se de que o menino não está ouvindo . O que ratifica de maneira exemplar esse tipo de conduta está expressa na frase que Schwarz ressalta: José Dias "não abusava e sabia opinar obedecendo" .
Já um cinqüentão respeitável que vive numa família de posses prestando todo o tipo de serviço, com uma bagagem retórica e cívica e com ar conselheiro, mas que não esconde ser simplesmente um moleque de recados, ele representa admiravelmente "a convivência espúria da relação de favor com aspirações de independência e cidadania" . Pois, a todo momento, José Dias assume seu princípio de "cálculo deliberado", pelo uso de "atitudes superficiais" cujo intuito explícito é o de construir um "escudo protetor" e assim evitar ser "destruído na representação de seu papel" . Há muitos exemplos. Quando ele comenta os olhos de Capitu, de cigana oblíqua e dissimulada (que para Bentinho são de ressaca), é porque há nesta observação um interesse egoísta manifesto: evitar o casamento deste com Capitu, "preservando sua posição privilegiada porém dependente na família" . Do mesmo modo se pode entender o ato da "denúncia" dita acima: ele recorda a dona Glória a promessa de fazer Bento um padre porque seus interesses brotam diretamente de sua situação; se Bento não casar, evita-se a perspectiva do aparecimento de quaisquer rivais em seu caminho . Alguns capítulos adiante no livro José Dias insinuará "seus serviços" para Bento, já que este chega inclusive a pressioná-lo - não devemos esquecer que é por intermédio de Capitu - a intervir na promessa do seminário; e, depois, via de regra, afeiçoando-se com o pequeno Ezequiel, para garantir o seu lugar na próxima geração.
A atitude do agregado aparece de forma mais perceptível nos capítulos IV e V, em que, durante sua descrição, Machado, pela voz de Bentinho, dá ênfase a algumas características. O uso de superlativos, primeiramente, surge como o recurso que fornece "feição monumental às idéias" , que demarca a posição de dependência e a necessidade de impor sua dignidade, esta alusiva "ao indivíduo livre na ordem burguesa moderna". Também notamos essa posição - muito precária, por sinal, no universo das relações sociais expostas no romance - por meio da postura e do trato com os superiores, em que o personagem se "desdobra em adulações". Já na presença de similares (para não dizer iguais, como recomenda Schwarz), sua força expressiva concentra-se mais na dignidade, "que se transforma no oposto autoritário e farsesco dela mesma" . Por certo, as vestimentas de José Dias, calças brancas engomadas e curtas, presilhas, rodaque e gravata de mola, representam muito bem alguém que deseja agradar a todos . O próprio andar, vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido , como que em dois tempos ou marchas, "ecoa as funções representativa e prestativa do agregado, bem como a vivacidade de quem vive de expediente" .
Das caracterizações feitas por Machado, precisamos notar uma outra, junto com Schwarz, que se refere ao culto do agregado pela gramática, pela prosódia, pelo direito (leis), pelas belas-letras, em resumo, pela "face representativa da ordem". Acontece que as "delícias" proporcionadas pelo reconhecimento dessas qualidades fazem José Dias esquecer o principal, ou seja, seu "desvalimento social efetivo"; por certo, o desvalimento contribui para a exclusão da revolta a respeito de seu papel, que poderia aflorar em algum instante, além de impedir também "a formação do critério próprio e a reflexão a respeito" de si e dos outros. Por outro lado, o corolário desse amor pelas "coisas do espírito" é lança-las todas na descrença . O mesmo se pode dizer do amor pelos formalismos, os quais, levados às últimas conseqüências, demonstram o desapreço vertiginoso do personagem pela dignidade que cultua.
A figura de José Dias, devido a essas e outras características, deixa a nu uma condição espúria que se conforma em estar entre a escravidão e o ideal liberal, com o agravante de os legitimar. Enfim, José Dias, no contexto de Dom Casmurro, mostra ser um "parasita" par excellence .

Todos esses detalhes, colhidos aqui a partir da figura do agregado, demonstram a capacidade e a perfeição com que Machado conseguiu elaborar personagens representativos de seu momento histórico. Poderíamos analisar a mãe de Bentinho, Capitu, Escobar ou qualquer outro personagem, uma vez que em todos é possível encontrar traços do que Schwarz chama de "lógica interna do tipo social", como já dito. Tal lógica, vista no conjunto da obra, permite uma percepção clara das clivagens sociais dominantes e subalternas. De outro modo, trata-se de dizer que ela constitui uma arquitetura de conteúdos . Sem entrar neste assunto, Dom Casmurro é o livro que pode ser estudado em todos os seus ângulos e detalhes mais recônditos. São aspectos que, relacionados à tessitura literária sutil mas intrincada da narrativa, garantem a sua atualidade.

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