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MAU HÁLITO
Fazia um ano que não ia ao teatro. A peça era dirigida por Roberto,
meu ex
namorado, e recebi o convite por e-mail. "Artaud", maldito, ele
sempre lia
este cara, me fazia sofrer. A atriz principal era a própria personificação
da loucura, uma Diva insana, e já tinham me dito que era a atual namorada
de
Roberto. Ele estava lindo com uma roupa de malha preta colada no corpo
ressaltando seu porte de atleta. O ambiente era onírico, mais precisamente
um pesadelo, que me levou a recordar o fim do nosso relacionamento...
Veio-me a cena de Roberto invadindo meu consultório bradando por ser
ouvido,
dizendo que minha próxima paciente poderia esperar, sou ginecologista
obstetra.
"Encontrei o zelador."
"Roberto, acalme-se, conversamos em casa."
"A - go -ra!"
"Você tem quinze minutos, é o máximo que deixo minha
paciente esperar."
"Você sempre conversa com o zelador."
"Sim. Perco um tempo na portaria, e daí?!"
"Ele falou que você não gosta de abraço."
"E..."
"Eu sempre te abraço."
"Você é carente, mas eu te amo."
"Sou ator."
"E..."
"Atores não guardam segredos."
"Pelo jeito nem dramas!"
"O zelador me ofereceu uma bala daquela marca que você sempre compra."
"Roberto, meu amor..."
"Disse que tenho bafo."
"A bala resolve e isso é bobagem, Roberto!"
"Agora vou ser tímido pra abraço e mudo!..."
Depois disso nosso namoro acabou e quando parei de recordar me dei conta que
a peça havia chegado ao final. Fui aos bastidores e para minha surpresa
nos
abraçamos e selamos nosso reencontro com um suave roçar de lábios.
O tempo
tinha nos deixado em paz. Felicitei à todos pelo espetáculo
e acabei
ganhando um beijo da namorada nova dele. Todo este contato, alegria e
cansaço, suor em seus rostos, me lembrou o fim de um parto. O meu bip
começou a tocar quebrando o êxtase, corri para pegar um táxi,
pois eu tinha
um novo corpo a receber.