CHOVE CHUVA
Chove sem parar em São Paulo. Ouvi reclamações , concordo que é cinza e chato, mas precisávamos de chuva. Eu tomei chuva por dentro e por fora, como diz Guilherme Arantes « deixa chover, deixa a chuva molhar... »
Alinhar a direita que é bonito e bom e beijo.
Elastica (banda de moças) line up connection annie
Lembre-se, cansou dos mails, escreva : Não me envie mais isso, PORRA.
« o/a amiga do ...@DOWER@...CONTOU... »
Rosas Lilás
Saí de casa naquele dia com a sensação de que, caso encontrasse
uma flor
pelo caminho, e mediante a beleza e a contundência de sua aparência,
talvez
eu não fosse trabalhar e me deixasse levar por uma outra atividade:
a
contemplação.
Chovia, tornando a cidade um tanto melancólica e os horizontes meio
embaçados. Qualquer um adivinharia um domingo, no entanto, o número
correto
era dois. O segundo dia da semana.
Passei por entre todo aquele chão molhado com uma certa delicadeza
tentando
preservar a boa aparência dos meus sapatos. Jamais confiei em alguém
com os
sapatos sujos. O guarda-chuva preto envelhecido precocemente por falta de
bons tratos protegia meus cabelos e a garganta de uma ocasional gripe.
Tentei prestar atenção na música do dia, sim, porque
caso estejamos atentos,
é perfeitamente possível deixar tocar, dentro das nossas cabeças,
a música
do dia, aquela companheira do subconsciente que traz, como o interior de um
biscoitinho da sorte chinês, uma mensagem com total livre arbítrio.
Nenhum sinal de qualquer flor, muito menos de uma rosa. A rádio
subconsciente deve ter sido apanhada por alguma interferência conseqüente
da
chuva, e não toca absolutamente nada hoje. Era um dia pálido,
propício a
desejos de encontros com rosas lilás.
Fui ao trabalho. À procura de rosas que jamais apareceram numa segunda
feira, segui. Rosas dificilmente sobrevivem após o assédio de
fim de semana
dos cães e das crianças no térreo dos prédios
da minha organizada
vizinhança. Segui. Com uma estranha forma de contemplar, com a firme
convicção de olhar tudo à minha volta. Com uma conhecida
esperança.
Persistente. Sagrada.
Os sonhos permanecem embora eu não anote todos. Também as tempestades
e as
crianças famintas por toda a parte. Alguns velhinhos continuam fugindo
da
loucura de suas famílias, freqüentando asilos, e praticando diferentes
tipos de evasão mental. Nestes asilos, os velhos continuam voltando
a um
passado, onde com certeza não existiam pitbuls. Onde crianças
brincavam de
bem me quer e mal me quer. Onde as crianças brincavam.
Ainda procuro a tal rosa. Ainda sonho com o instante sagrado em que
brincarei de esconde esconde. Escancararei meu medo e plantarei um jardim
de
rosas lilás no meu quintal, regadas com parcimônia. Sonharei
bem alto.
Abrirei a janela. Darei de cara com o sol. Abrirei a janela e darei de cara
com a chuva. Abrirei a janela e darei de cara com a lua.
Aqui estou eu. Contemplo a vida como uma possível história,
que um dia
contarei aos meus filhos, aos meus cães, à minha menopausa,
e às minhas
rugas. Rugas com desenhos de rosas lilás, de pétalas, de espinhos,
de
sapatos limpos, de pingos de chuva, de manhãs de sol, de banhos de
lua, de
fiapos de guarda-chuva velho, rugas de expressão de uma geração,
da geração
filtro solar. ( ass. Mistério, foi um presente enviado por um amigo,
desconheço o autor/a)
Bisoca Dani.